
O Tempo e o Vento - O Continente Vol 2
Erico Veríssimo
Companhia da Letras
440 páginas
ISBN 9788535905625
Preço: R$51,50
Ficção ou realidade, mentira ou verdade, eis a questão. A frase é de autoria de Rodrigo Celente em um texto muito interessante sobre a obra de Erico Veríssimo. Essa constatação é especialmente verdadeira na trilogia "O Tempo e o Vento", onde a vida dos personagens de Santa Fé é influenciada, muitas vezes definida, por acontecimentos externos - esses sim fatos históricos.
O fio da estória dos Terra Cambará continua a ser tecido nesse segundo volume da saga, seis capítulos entremeados de pontos que descrevem os acontecimentos no Sobrado entre os dias 24 e 27 de junho de 1895, durante a revolução. Na vida real, fatos como a Guerra do Paraguai, a campanha pela república e a consequente abolição da escravatura, a epidemia de cólera que assolou Porto Alegre entre novembro de 1855 a janeiro de 1856 e que matou 10% da população da cidade; na Santa Fé de Erico, a lenda viva da Teiniaguá, a princesa moura transformada em lagartixa com cabeça de diamante e que leva os homens à loucura, na personagem enigmática de Luzia, a sedutora esposa de Bolivar Cambará.
Ainda nas palavras de Rodrigo Celente, a dicotomia violência/amor contrapõe a sociedade masculina e machista (o vento que se faz sempre presente) à feminina, calada e persistente (o tempo). Os homens cuidam dos negócios, das terras, dos cavalos - e das guerras. As mulheres, apesar de determinadas como Bibiana, sofrem caladas o destino que lhes é imposto. O melhor exemplo talvez seja o de Maria Valéria: apaixonada pelo primo que preferiu casar com sua irmã, ela dedica sua vida a cuidar dos sobrinhos.
Nenhum dos personagens d'O Continente passa em branco, desde os poderosos ou cultos ao mais simples e humilde peão de estância. E é de um deles que vem a frase que para mim é a síntese das revoluções que marcaram a história do Rio Grande. Ao ouvir o patrão e amigo Licurgo discursar sobre a necessidade de os partidos políticos se unirem contra o inimigo comum que era a escravidão, Fandango cospe entre os cacos de dentes e define: "Conversa fiada. O inimigo do hombre é o hombre mesmo."

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