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segunda-feira, 12 de maio de 2008

O Tempo e o Vento: O Retrato, vol.1


Erico Verissimo
344 páginas
ISBN: 9788535905632
Preço: R$ 44,50





Primeiro volume da segunda parte da trilogia O tempo e o Vento. Inevitavelmente, comparo com os dois volumes da primeira parte, O Continente. Neles, a presença forte das lutas pela construção do que hoje é o Rio Grande do Sul; lutas contra os castelhanos, lutas para arrancar da coroa espanhola as terras do Continente de São Pedro, lutas travadas por homens marcantes como o Capitão Rodrigo Cambará.

O Retrato traça um outro Rodrigo Cambará, o bisneto, já na virada do Séc. XIX para o Séc. XX. A estória corre lentamente, lenta como ainda era a vida na pequena Santa Fé, até a chegada de Rodrigo, vindo de Porto Alegre com seu diploma de medicina na mala e muitas idéias de modernização e justiça na cabeça. Rodrigo tem do bisavô o gosto pela novidade, pela aventura - e pelas mulheres. E tem também toda a carga cultural das oligarquias gaúchas.

É uma narrativa de caráter psicológico, e nisso muitos (eu, inclusive) podem ver uma desvantagem na comparação com os dois primeiros volumes, de caráter épico. Há que acompanhar a mudança do tempo, há que ver Santa Fé com os olhos do novo Rodrigo e não com os de seu irmão Toríbio, para quem as únicas coisas importantes eram a estância do Angico com sua rotina campeira e as pequenas revoluções, que homem bem macho é feito para isso mesmo.

Mesmo com ritmo mais lento, O Retrato vol. 1 desempenha um papel importantíssimo na obra de Erico: o de mostrar claramente as injustiças sociais causadas pelas caudilhos locais. É uma aula sobre a História Brasileira do começo do Século XX, quando a República já estava consolidada. Uma aula sobre a farsa que eram as eleições, com voto em aberto, eleitores votando mais de uma vez, nomes de mortos ressurgindo, urnas onde a oposição vencia sendo anuladas ou simplesmente roubadas e destruídas.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

O Tempo e o Vento - O Continente Vol 2



O Tempo e o Vento - O Continente Vol 2
Erico Veríssimo
Companhia da Letras
440 páginas
ISBN 9788535905625
Preço: R$51,50



Ficção ou realidade, mentira ou verdade, eis a questão. A frase é de autoria de Rodrigo Celente em um texto muito interessante sobre a obra de Erico Veríssimo. Essa constatação é especialmente verdadeira na trilogia "O Tempo e o Vento", onde a vida dos personagens de Santa Fé é influenciada, muitas vezes definida, por acontecimentos externos - esses sim fatos históricos.

O fio da estória dos Terra Cambará continua a ser tecido nesse segundo volume da saga, seis capítulos entremeados de pontos que descrevem os acontecimentos no Sobrado entre os dias 24 e 27 de junho de 1895, durante a revolução. Na vida real, fatos como a Guerra do Paraguai, a campanha pela república e a consequente abolição da escravatura, a epidemia de cólera que assolou Porto Alegre entre novembro de 1855 a janeiro de 1856 e que matou 10% da população da cidade; na Santa Fé de Erico, a lenda viva da Teiniaguá, a princesa moura transformada em lagartixa com cabeça de diamante e que leva os homens à loucura, na personagem enigmática de Luzia, a sedutora esposa de Bolivar Cambará.

Ainda nas palavras de Rodrigo Celente, a dicotomia violência/amor contrapõe a sociedade masculina e machista (o vento que se faz sempre presente) à feminina, calada e persistente (o tempo). Os homens cuidam dos negócios, das terras, dos cavalos - e das guerras. As mulheres, apesar de determinadas como Bibiana, sofrem caladas o destino que lhes é imposto. O melhor exemplo talvez seja o de Maria Valéria: apaixonada pelo primo que preferiu casar com sua irmã, ela dedica sua vida a cuidar dos sobrinhos.

Nenhum dos personagens d'O Continente passa em branco, desde os poderosos ou cultos ao mais simples e humilde peão de estância. E é de um deles que vem a frase que para mim é a síntese das revoluções que marcaram a história do Rio Grande. Ao ouvir o patrão e amigo Licurgo discursar sobre a necessidade de os partidos políticos se unirem contra o inimigo comum que era a escravidão, Fandango cospe entre os cacos de dentes e define: "Conversa fiada. O inimigo do hombre é o hombre mesmo."

domingo, 2 de março de 2008

O Tempo e o Vento - O Continente Vol 1


Erico Verissimo
414 páginas
ISBN: 9788535905595
Preço: R$47,38




Essa será provavelmente a mais difícil tarefa da minha lista. Para falar sobre Erico Verissimo e "O Tempo e o Vento" há que conhecer a história do Sul do Brasil, há que entender as pessoas e a cultura geradas por décadas de lutas sangrentas e isolamento geográfico e político. O Rio Grande do Sul, então chamado de Continente de São Pedro, foi desenhado pelas patas dos cavalos e pelas facas dos homens que neles montavam e viajavam por essas terras de ninguém.

Em 1745, quando se inicia a ação do romance, o Continente ainda era isso, uma terra de ninguém. Os jesuítas já tinham suas Missões há quase 100 anos, e haviam estabelecido uma sociedade impar, socialista na sua administração e religiosa como se poderia esperar. Os índios, nativos e donos da terra, dividiam toda a produção que dela extraíam, e aprendiam com os padres a ler, a tocar e produzir instrumentos musicais.

Os homens que montavam os cavalos e peleavam chegaram por essa época, os portugueses vindo de São Vicente (hoje São Paulo) e os castelhanos da Banda Oriental, do Rio da Prata e dos lugares que hoje conhecemos por Uruguai e Argentina. Todos guerreando por terras, buscando suas riquezas e caçando pessoas para torná-las escravas, incentivados pelos governos de Portugal e Espanha, que tentavam estender seus domínios pela ponta de espadas - e algumas vezes pela pena no papel, assinando tratados que apenas a eles interessavam, sem consideração alguma pelos habitantes, fossem eles os índios nativos ou os brancos invasores.

É nesse teatro que o enredo inicia e segue por mais de 150 anos descritos em sete volumes. "O Continente, volume 1" é dividido em sete capítulos, todos eles unidos pelo fio dos acontecimentos que se desenrolam n"O Sobrado", então sitiado pelas tropas federalistas durante a revolução de 1895 e contam os acontecimentos transcorridos da noite do dia 24 de junho à madrugada de 27 de junho. "Era uma noite fria de lua cheia", começa a estória, e então nos encontramos irremediavelmente presos à saga da família Cambará. "Um Cambará macho não morre na cama", dizia o Capitão Rodrigo, e essa frase ficou gravada nos povos do Continente como tatuagem. Há que conhecer a história, e então ela, a frase, faz sentido.

Erico Verissimo é um excelente contador de estórias, um dos melhores que conheço. Os personagens de "O Tempo e o Vento" atam, cativam, despertam amores e ódios, nunca indiferença. As guerras estão presentes sempre, e através delas conhecemos homens fortes e guerreiros, mas são as mulheres que conduzem o fio do tempo e é sob sua ótica, a voz das mulheres destinadas a servir e a parir, que acompanhamos o crescimento de uma sociedade machista.


A primeira, forte e corajosa, é Ana Terra, dotada de uma determinação imbatível, toda ela engajada em garantir a subsistência da pequena família que lhe sobrou após a carnificina patrocinada pelos castelhanos que mataram seu pai e irmãos. Segue-lhe a neta Bibiana, a encarnação do conceito "persistência feminina", aquela que aceita a vida como ela é mas que conduz as peças do jogo de maneira a favorecer seus objetivos.


Entre os homens, nenhum que se compare ao Capitão Rodrigo Cambará, intrépido, sedutor, todo ele exalando vida e energia. "Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!", suas primeiras palavras na estória, são repetidas até hoje - e repetidas sem que seja necessário citar o autor.


"Num constante ir e vir entre o passado - as Missões, a fundação do povoado de Santa Fé - e o tempo do Sobrado sitiado [...] desfilam personagens fascinantes, eternamente vivos na imaginação dos leitores de Erico Verissimo." (informação da contracapa)


Livro imprescindível.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Alice no País das Maravilhas




Lewis Carroll
172 páginas
ISBN: 978.85.254.0943-0
Preço: R$12,00








Minha lista dos 100 anda um pouco lenta porque tenho lido muita coisa sobre vinhos. Alice está na lista, e eu decidi que agora era um excelente momento para ler suas aventuras. Muita informação técnica junto com a filosofia um pouco pesada (para mim) dos últimos livros não estavam me fazendo bem.

Eu provavelmente li esse livro mas, se li, foi há tanto tempo que nem lembro. Claro que o enredo básico estava gravado a ferro e a fogo na minha memória. Como toda a estória clássica, podemos resumi-lo mesmo que nunca tenhamos posto os olhos no original.

Escrito originalmente para crianças, o livro foi publicado em 1865 sem mencionar esse fato, e imediatamente tornou-se um grande sucesso também entre adultos, não só por ser uma estória fascinante, mas também por retratar fielmente algumas situações tão comuns ao nosso dia-a-dia. Ao meu, pelo menos - a Síndrome do Coelho faz parte do meu pacotinho de resoluções para 2008. Se minha intenção era fugir de filosofia, a escolha não foi tão boa afinal. Há coisas nesse livro que cutucam!

Como o diálogo da Alice com o Gato, quando ela pergunta que caminho tomar para sair do lugar onde estava. "Isso depende de onde você quer chegar", foi a resposta. Ao que Alice retrucou: "O lugar não me importa muito." E ouviu a conclusão óbvia - no livro, porque nas nossas vidas muitas vezes a ignoramos: "Então não importa que caminho você vai tomar."

E outras, como o eterno questionamento de, afinal, quem sou eu? "...sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então." Ou essa: "... não adianta voltar atrás para ontem, porque eu era então uma pessoa diferente."

Mesmo com filosofia, o livro atingiu o objetivo que eu busquei: uma leitura leve, divertida e muito inteligente. Acho que o próximo será uma das comédias do Shakespeare.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Eva Luna


Isabel Allende
288 páginas
ISBN 9871138873
Preço: 19 pesos (no catálogo da editora)


Já li esse livro duas vezes: uma em inglês, presente da Inge quando veio ao Brasil (que eu emprestei sem nunca receber de volta...) e a segunda em espanhol, presente da Gabi quando foi a Buenos Aires. Deveria ler uma terceira, em espanhol mesmo, para ter a memória reavivada por uma das estórias mais lindas que já li, e encontrar as palavras para tentar traduzir as emoções que esse livro desperta.

Falar sobre a autora é chover no molhado. Acredito que qualquer pessoa que tenha amor por livros e especialmente por estórias bem contadas já leu alguma obra da Isabel Allende. Em Eva Luna, sua terceira novela, Isabel descreve a vida latinoamericana de pobreza, riqueza, ditaduras militares e religiosas, revoluções e mortes mas sobretudo de muito amor, usando a memória e a imaginação em doses fartas. Eva, a protagonista, que usa a voz para contar a estória do livro e muitas outras mais, tal qual Sherazade e seus 1001 contos, é considerada o alter ego de Isabel, que chama a si própria de "ladra de estórias".

Eu queria encontrar um trecho para copiar aqui, quando Eva conta sobre o poder mágico que o ato de fazer amor exerce sobre a casa de madeira dos tios de Rolf, mas só encontrei uma menção. E acho melhor ficar com ela, porque me conheço e, como a menina que largava o caderno - onde o tema da escola esperava - para ler "apenas uma estorinha" em quadrinhos perdendo assim a manhã inteira, se começar a procurar vou acabar me enredando na paixão que esse livro desperta, e lá se vai o dia e a disciplina de tentar seguir a minha lista dos 100.

"Aquella noche y todas las noches seguientes retozamos con un ardor interminable hasta que las maderas de la casa adquirieron el brillo refulgente del oro."

PS - inspirada pela leitura do "Tudo sobre livros" e pela maneira como a Karen e a Miki oferecem informações, a partir dessa postagem tenho uma mini ficha técnica e marcadores.

sábado, 6 de outubro de 2007

24 horas na vida de uma mulher



"24 horas na vida de uma mulher"
Stefan Zweig
L&PM Coleção Pocket Plus

O livro é pequeninho, um longo conto, que a gente lê numa sentada. Demora um pouco para pegar o ritmo, mas depois que embala... Não dá para parar.

Não sei como homens reagem a esse texto, ou pessoas racionais para quem os sentimentos devem ser mantidos sob o mais rígido controle. O que sei é que qualquer pessoa movida a paixão veste a pele da Mrs. C. num momento ou outro. Eu a vesti quando ela segue o jovem saindo do cassino. "Mas depois, de repente, subiu em mim outra vez aquela angústia incompreensível. Pedi depressa meu casaco e, sem pensar em nada definido, mecanicamente, impulsivamente, saí atrás daquele estranho na escuridão."

A contracapa informa que Freud tinha predileção por esse texto, um dos mais difundidos de Stefan Zweig. Posso muito bem imaginar por quê. Sexo e culpa, mesmo que do primeiro não haja qualquer descrição explícita, ele apenas paira presente no ar como o brisa vinda do mar em Monte Carlo. Já a culpa é carregada pela Mrs. C. por mais de 20 anos. Bem de acordo com as minhas, frutos de genética cristã por sua vez descendente de todas as culpas herdadas do judaísmo. No caso da Mrs. C., sadicamente refinadas pelo protestantismo/anglicanismo.

A tradução do alemão soma: Lya Luft. Desnecessário acrescentar elogios.