sábado, 29 de dezembro de 2007

Zen and the Art of Motorcycle Maintenance




Zen and the Art of Motorcycle Maintenance
Robert M. Pirsig
Harper Perennial Modern Classics
430 páginas
ISBN-13: 9780060839871
Preço: R$35,00



Posso dizer que esse foi o livro mais difícil que já li. Talvez tenha tentado outras leituras difíceis, mas não lembro de ter persistido até o final, mesmo estando totalmente perdida, e ainda assim pensar que devo me aventurar pelas mesmas páginas outra vez.

Mas não agora. Esse livro me cansou. Às vezes leio dois livros ao mesmo tempo, mas com esse tive que me cercar de outros dois.

A estória é relativamente simples: uma viagem de motocicleta, pai e filho, através de pequenas estradas no interior dos Estados Unidos até San Francisco. É narrada em primeira pessoa, o que, como o próprio autor reconhece na introdução, aprisiona ambos, autor e leitor, na mente do narrador. Tudo o que vemos é o que ele pensa, sem contrapontos, sem uma visão alternativa, sem chance de escapar.

A viagem é o cenário para explorações sobre Qualidade numa narrativa pontuada por discussões abrangendo ciência, tecnologia, filosofia clássica e também manutenção de motocicletas - mas não muito. Um dos pontos que registrei é a classificação de personalidades como clássicas ou românticas. Clássicas são as pessoas com mente analítica e crítica, que desconstroem máquinas e pensamentos; românticos estão interessados no conjunto, no contexto, imersos em uma postura zen.

Li diversos comentários sobre este livro. Um deles o define como um caso de amor ou ódio, sem meio termo. Não concordo. Eu não consegui digerir o que li, acredito que teria aproveitado muito mais se tivesse algum conhecimento sobre filosofia. Mas acredito também que alguns livros devam ser lidos pela mensagem e por isso não desisti dele. Mensagens como a resposta que o pai dá ao filho no final da viagem quando ele pergunta se aprender sobre a manutenção de motocicletas é muito difícil: "Não é se você tiver as atitudes corretas. Ter atitudes corretas é que é difícil."

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

A arte de escrever





A arte de escrever
Arthur Schopenhauer
Coleção L&PM Pocket
176 páginas
ISBN-13: 978.85.254.1464-9
Preço: R$ 12,00



Um pequeno grande livro, difícil escrever sobre ele. Como, se em grande parte do texto Schopenhauer distribui críticas ferinas e xingamentos nada sutis contra os "desperdiçadores de tinta" (atualmente seriam de bits? preciso perguntar ao Marcelo) e os maus escrivinhadores?

Difícil, muito difícil. Melhor limitar-me a repetir informações da contracapa e transcrever trechos sublinhados em páginas com orelha dobrada. Raramente dobro pontas de páginas nos meus livros (e nunca nos dos outros!), porque uma vez dobrada, marcada para sempre. Mas esse livro me pediu para fazer isso, e também sublinhar muitos trechos e expressões.

Arthur Schopenhauer (século XIX) é um dos mais importantes filósofos alemães. Não vou entrar na questão da linha filosófica, que serei então uma verdadeira desperdiçadora de tinta; informo apenas que ele foi influenciado por Kant, por sua vez influenciou Nietzsche, introduziu o budismo na metafísica alemã e desprezou Hegel, cuja obra ele chamava de pseudo-filosofia.

"A arte de escrever" é na verdade uma antologia de ensaios recolhidos de "Parerga e Paralipomena", uma de suas obras mais importantes. São textos recheados de críticas ferozes e reflexões sobre o ato de pensar e escrever, dos quais eu copio alguns dos trechos que sublinhei.

Sobre a erudição e os eruditos
"Diante da imponente erudição de tais sabichões, às vezes digo para mim mesmo: Ah, essa pessoa deve ter pensado muito pouco para poder ter lido tanto!"

Pensar por si mesmo
"O meio mais seguro para não possuir nenhum pensamento próprio é pegar um livro nas mãos a cada minuto livre." (essa é um chute na minha canela!!)

"Ler significa pensar com uma cabeça alheia, em vez de pensar com a própria. [..] As pessoas que passam suas vidas lendo e tiram sua sabedoria dos livros são semelhantes àquelas que, a partir de muitas descrições de viagens, têm informações precisas a respeito de um país.

Sobre a escrita e o estilo
"Qualquer um que precise de dinheiro senta-se à escrivaninha e escreve um livro, e o público é tolo o bastante para comprá-lo."

"Usar muitas palavras para comunicar pensamentos é sempre o sinal inconfundível de mediocridade [...]. A verdade fica mais bonita nua, e a impressão que ela causa é mais profunda quanto mais simples for sua expressão."

Sobre a leitura e os livros
"Quando lemos, somos dispensados em grande parte do trabalho de pensar. É por isso que sentimos um alívio ao passarmos da ocupação com nossos próprios pensamentos para a leitura." (qualquer semelhança...)

"E, assim como o excesso de alimentação faz mal ao estômago e dessa maneira acaba afetando o corpo todo, também é possível, com excesso de alimento espiritual, sobrecarregar e sufocar o espírito."

"... os pensamentos postos em papel não passam, em geral, de um vestígio deixado na areia por um passante: vê-se bem o caminho que ele tomou, mas para saber o que ele viu durante o caminho é preciso usar os próprios olhos."

E eu que comprei esse livro sabendo quase nada do Schopenhauer, na ilusão de que ele me ajudaria a escrever melhor... Pelo menos serviu para dar uma chacoalhada, para eu entender que preciso descer do cavalo (os livros) e andar com meus próprios pés. Só tem um problema: como Schopenhauer mesmo diz, "é possível a qualquer momento sentar e ler, mas não sentar e pensar."

PS - Alan, thanks, "Under Milk Wood" (Dylan Thomas) on my list.

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Eva Luna


Isabel Allende
288 páginas
ISBN 9871138873
Preço: 19 pesos (no catálogo da editora)


Já li esse livro duas vezes: uma em inglês, presente da Inge quando veio ao Brasil (que eu emprestei sem nunca receber de volta...) e a segunda em espanhol, presente da Gabi quando foi a Buenos Aires. Deveria ler uma terceira, em espanhol mesmo, para ter a memória reavivada por uma das estórias mais lindas que já li, e encontrar as palavras para tentar traduzir as emoções que esse livro desperta.

Falar sobre a autora é chover no molhado. Acredito que qualquer pessoa que tenha amor por livros e especialmente por estórias bem contadas já leu alguma obra da Isabel Allende. Em Eva Luna, sua terceira novela, Isabel descreve a vida latinoamericana de pobreza, riqueza, ditaduras militares e religiosas, revoluções e mortes mas sobretudo de muito amor, usando a memória e a imaginação em doses fartas. Eva, a protagonista, que usa a voz para contar a estória do livro e muitas outras mais, tal qual Sherazade e seus 1001 contos, é considerada o alter ego de Isabel, que chama a si própria de "ladra de estórias".

Eu queria encontrar um trecho para copiar aqui, quando Eva conta sobre o poder mágico que o ato de fazer amor exerce sobre a casa de madeira dos tios de Rolf, mas só encontrei uma menção. E acho melhor ficar com ela, porque me conheço e, como a menina que largava o caderno - onde o tema da escola esperava - para ler "apenas uma estorinha" em quadrinhos perdendo assim a manhã inteira, se começar a procurar vou acabar me enredando na paixão que esse livro desperta, e lá se vai o dia e a disciplina de tentar seguir a minha lista dos 100.

"Aquella noche y todas las noches seguientes retozamos con un ardor interminable hasta que las maderas de la casa adquirieron el brillo refulgente del oro."

PS - inspirada pela leitura do "Tudo sobre livros" e pela maneira como a Karen e a Miki oferecem informações, a partir dessa postagem tenho uma mini ficha técnica e marcadores.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Entre quatro paredes










"Entre quatro paredes"
Jean-Paul Sartre
Editora Civilização Brasileira

Meu primeiro Sartre. A Gabi comprou esse livro há um tempo atrás, por indicação, acredito, da Carol, de quem ela tem dois livros. Ele ficou circulando na minha estante, me tentando, enquanto eu me distraia com livros já lidos. Com a decisão de selecionar os 100 "obrigatoriamente-tenho-que-ler", a tentação virou decisão.

Sartre nasceu em Paris no início do século XX, e teve sua vida e obra influenciadas pela Segunda Guerra. É certamente o mais famoso filósofo existencialista - tanto é que eu, apenas agora travando relações com a filosofia, sempre soube ligar Sartre ao existencialismo. A minha Pesquisa Google me levou à Wikipédia e a uma luz para minha ignorância. No existencialismo, o papel da filosofia é invertido: desde Platão, a preocupação é o universal em detrimento do particular enquanto que para Sartre a existência deve vir antes da essência através da discussão filosófica sobre questões cotidianas, caminhando assim para a universalidade.

O drama apresentado tem cento e poucas páginas e é uma das suas mais famosas obras. O texto começa com seu subtítulo: "Peça em um ato". São apenas três personagens confinados permanentemente num espaço fechado, com poucos móveis e iluminação ininterrupta: bem-vindos ao Inferno moderno de Sartre. Não há castigos físicos nem um torturador oficial, apenas os três "clientes", como são chamados os novos habitantes, sem dormir, sem descanso, condenados a uma convivência eterna, sem trégua.

A apresentação "O inferno segundo Sartre", escrita por Miguel Sanches Neto, foi uma leitura essencial para mim. "O castigo infernal", diz ele, "é este convívio de pessoas que perderam suas proteções, de seres cuja consciência aflorou brutal, de tal forma que nada pode ser escondido." Na frase mais conhecida de Sartre, "o inferno são os outros".

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

O livro dos abraços






"O livro dos Abraços"
Eduardo Galeano
L&PM Coleção Pocket


Eis outro livro do "ranchinho" que fiz na Siciliano há algumas semanas atrás. Os livros dessa coleção são um pouco mais caros que os da Pocket Plus, mas são também mais longos.

Confesso minha quase total ignorância sobre o autor. Que é latino-americano eu sabia, mas pensava ser argentino. É uruguaio, de Montevideo, nascido em 1940. Como tantos outros escritores e pessoas que ousam pensar por conta própria - e além disso, dizer ou publicar o que pensam, foi caçado pela ditadura militar, essa praga que assolou o nosso continente. Esteve exilado na Europa um bom tempo, onde escreveu grande parte de seus livros.

Esse, dos abraços, é uma coletânea de pequenas histórias, colhidas em andanças pelo mundo, ouvidas, sonhadas, vividas. Pedacinhos da memória do autor, "a memória viva", como ele mesmo diz, que "nasce a cada dia". A contracapa já avisa: "Abra esse livro com cuidado: ele é delicado e afiado como a própria vida". Tem histórias que me fizeram rir, como a dos bêbados abençoados porque verão Deus duas vezes, tem histórias de pura poesia, como a do menino que, ao ver o mar pela primeira vez e sem encontrar palavras para dizer o que sentia, pediu ao pai: "me ajuda a olhar". Mas tem também, e muitas, histórias que enchem de raiva, aquela raiva que dá vontade de gritar e bater com a cabeça na parede e perguntar por quê, por que alguns seres humanos são mais monstruosos do que a mais monstruosa das bestas jamais inventada pelo nosso inconsciente coletivo?

"O livro dos abraços" ganhou um lugar na minha mesa de cabeceira, onde coloco livros que posso ler aos pedaçinhos, quando não quero me comprometer com longas histórias. Mas desconfio que terei que providenciar uma capa para ele, porque ele também vai estar muitas vezes na minha bolsa, me acompanhando no ônibus, numa sala de espera, em viagens para Garibaldi. Foi o primeiro do Eduardo Galeano que li, mas certamente não será o único.



terça-feira, 23 de outubro de 2007

Sobre a brevidade da vida









"Sobre a brevidade da vida"
Sêneca
L&PM Coleção Pocket Plus


A coleção L&PM Pocket Plus tem títulos muito interessantes. São livrinhos pequeninos, como "24 horas na vida de uma mulher" e esse, que eu demorei para ler, porque estava (e ainda estou) envolvida com livros sobre vinho.

A contra-capa informa ser esse um dos textos mais conhecidos da Antigüidade latina. Confesso minha ignorância, o que só reforça a idéia que tenho sobre o que nos ensinam a ler na escola, ou pelo menos no colégio onde estudei. Sinto falta, agora, de ter lido textos como esse, que nos fazem pensar. Eu lia, lia muito, e autores de excelente qualidade, como Machado de Assis. Mas eram livros sobre os quais certamente teríamos perguntas a responder no vestibular, e esse era o objetivo. Ensinar a pensar, analítica e criticamente, não fazia parte do currículo escolar.

Lúcio Anneo Sêneca viveu em Roma no início da Era Cristã. "Sobre a brevidade da vida" é sua obra mais conhecida. São cartas escritas a um suposto amigo, cuja identidade é controversa, e que falam sobre a suposta brevidade da vida.

Sua crítica é dirigida principalmente a homens poderosos (como generais e senadores), que buscam a glória sem cessar, que trabalham todas as horas do dia, mas também àqueles que dispõem de tempo e condições financeiras para não necessitarem fazer coisa alguma. Pessoas que sonham com o dia em que se "aposentarão", quando poderão realizar todos os sonhos e projetos para os quais falta tempo, ou pessoas que acreditam ter todo o tempo do mundo, como se entre as riquezas possuídas estivesse a eternidade. Tais pessoas, ele diz, ao enfrentarem a morte protestam porque acreditam que a vida lhes é tirada injustamente, quando eles tem tantos projetos não realizados. São pessoas que não vivem, apenas existem.

"Deve-se aprender a viver por toda a vida e, por mais que te admires, durante toda a vida se deve aprender a morrer." Vida e morte são duas faces da mesma moeda, e essa moeda pode ser muito bem usada, ou guardada num bolso e esquecida, até que chegue o momento de prestar contas.

É uma leitura que eu quero repetir - porque também eu, agora que o pior aparentemente já é passado, creio ter todo o tempo do mundo, e passo dias a existir apenas. Tenho muitos projetos, e apesar de muitos deles necessitarem de investimento financeiro - ou seja, inviáveis no momento, tenho outros tantos que só necessitam de investimento pessoal, de comprometimento. "Ah, deixa prá amanhã, hoje não estou com vontade." Sei que a depressão é responsável em grande parte, mas tenho certeza de que um pouco de disciplina mudaria o quadro.

sábado, 6 de outubro de 2007

24 horas na vida de uma mulher



"24 horas na vida de uma mulher"
Stefan Zweig
L&PM Coleção Pocket Plus

O livro é pequeninho, um longo conto, que a gente lê numa sentada. Demora um pouco para pegar o ritmo, mas depois que embala... Não dá para parar.

Não sei como homens reagem a esse texto, ou pessoas racionais para quem os sentimentos devem ser mantidos sob o mais rígido controle. O que sei é que qualquer pessoa movida a paixão veste a pele da Mrs. C. num momento ou outro. Eu a vesti quando ela segue o jovem saindo do cassino. "Mas depois, de repente, subiu em mim outra vez aquela angústia incompreensível. Pedi depressa meu casaco e, sem pensar em nada definido, mecanicamente, impulsivamente, saí atrás daquele estranho na escuridão."

A contracapa informa que Freud tinha predileção por esse texto, um dos mais difundidos de Stefan Zweig. Posso muito bem imaginar por quê. Sexo e culpa, mesmo que do primeiro não haja qualquer descrição explícita, ele apenas paira presente no ar como o brisa vinda do mar em Monte Carlo. Já a culpa é carregada pela Mrs. C. por mais de 20 anos. Bem de acordo com as minhas, frutos de genética cristã por sua vez descendente de todas as culpas herdadas do judaísmo. No caso da Mrs. C., sadicamente refinadas pelo protestantismo/anglicanismo.

A tradução do alemão soma: Lya Luft. Desnecessário acrescentar elogios.




sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Como se chama a pessoa viciada em livros?





Mas a decoração... Se juntarmos os meus livros com os dela e mais os que eram do meu pai e que estão no quartinho da cobertura, estamos quase lá! Hoje mesmo não resisti: fui ao shopping comprar a passagem para Garibaldi e simplesmente t-i-v-e que entrar na Siciliano e bisbilhotar os pockets da L&PM. Saí de lá com 4...

Aprendi com meu pai que a melhor forma de educação é pelo exemplo. Nunca forcei o hábito da leitura nos meus filhos, eles simplesmente sempre me viram com um livro na mão. Eu os levava à Feira do Livro, claro, e os olhinhos deles brilhavam! Os olhinhos da Gabi ainda brilham e ela tem sempre livros ao redor. É a única pessoa que conheço que leu a Bíblia de ponta a ponta e Números com uma calculadora, para conferir se estavam corretos.

Não fui tão bem sucedida com o Marcelo. Ele lê, sim, muita coisa, desde que esteja na tela de um computador... Acho que ele não tem paciência para ficar virando páginas após páginas, quando uma tela e um teclado podem trazer mais informações (talvez seja essa a opinião dele, nunca questionei) e, muito importante, muito mais rápido. Paciência.