quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A tempestade






A tempestade
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
115 páginas
ISBN: 978.85.254.1115-0
Preço: R$9,50


Para minha surpresa, a última obra escrita pelo bardo não é uma tragédia. A contracapa informa ser uma estória de vingança, de amor, de conspirações oportunistas. Há traição, mas não morte.

A estória acontece numa ilha, para onde Próspero, o Duque de Milão, foi levado com sua filha então pequena, devido à traição de seu próprio irmão que juntou-se ao Rei de Nápoles. Nessa ilha mora Caliban, um escravo adulto e disforme que serve Próspero. Também a serviço do Duque está Ariel, um espírito assexuado que pode se transformar em vento, tempestade, fogo e em qualquer imagem que deseje.

Por anos, Próspero desenvolve poderes e planeja sua vingança contra seus desafetos, ao mesmo tempo que cria uma estratégia para tornar sua filha, a bela Miranda, em esposa do herdeiro do trono de Nápoles. Com o auxílio de Ariel, uma forte tempestade é provocada, causando o "naufrágio" do navio onde se encontram o Rei, seu filho e auxiliares, incluindo aí o irmão de Próspero. Como em Sonhos de uma noite de verão, a imaginação do bardo corre solta: mágica e seres espirituais contribuem tanto para a riqueza do enredo quanto acontecimentos corriqueiros como um pileque.

Esse é o momento cômico da estória. Caliban encontra dois sobreviventes do "naufrágio" que tem acesso a um carregamento de vinho. Os diálogos então travados são ricos em ofensas ("aborto da natureza" e "monstro mentecapto" são algumas delas) e tiradas: "enfio o gibão para dentro do cós e, pela minha mão, ele agora está ao sul do Equador, e aqui encontra, este gibão, uns bagos! Quando de sífilis se perderem os pentelhos, teremos um colhão careca."

E a estória, que por muitos é considerada a obra-prima de Shakespeare, uma estória de dor e reconciliação, acaba bem. Só não vou contar como, prá não estragar o prazer de quem vai ler. Posso dizer que fechei minha "série Shakespeare" com chave de ouro.

Macbeth




William Shakespeare
134 páginas
ISBN: 978.85.254.1024-5
Preço: R$9.00




Macbeth, juntamente com O Rei Lear, foi escrita na maturidade de Shakespeare, entre 1605 e 1606. Encontramos aqui aquela que os críticos consideram uma das mais pérfidas vilãs da literatura: Lady Macbeth, a ambiciosa esposa do general escocês.

Macbeth e Banquo, outro general, encontram três bruxas que fazem predições sobre o futuro dos dois: Macbeth será rei, mas menos poderoso que Banquo, cujos filhos serão reis. Macbeth não entende como tal poderá acontecer e narra o encontro para sua esposa que, ambiciosa, exerce seu poder sobre o marido, convencendo-o a cometer traição e assassinatos.

Tais fatos desecadeiam uma série de acontecimentos (leia-se mais traições e mortes), causando uma reviravolta na corte.

Mortes demais para meu gosto.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O Rei Lear




O Rei Lear
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
140 páginas
ISBN: 978.85.254.0681-1
Preço: R$10,00
Tradução: Millor Fernandes



A teimosia foi maior, e eu não deixei nem Lear, nem Macbeth e nem A Tempestade para outra ocasião. Continuo sem muita inspiração para escrever sobre o que li - até porque teatro não é meu forte. Mas vou tentar, nem que seja para copiar pedaços das contracapas.

O que não me entusiasma muito a respeito desse tipo de obra é que, por razões óbvias, o texto é todo constituído de diálogos, em geral curtos, que devem resumir situações complexas, sentimentos, idéias, dores e amores. O que num romance ou mesmo num conto toma uma ou duas páginas, aqui ocupa um par de linhas. Acredito que o palco e a possibilidade de ver a face e a voz das emoções mude essa sensação. Mas como já disse, o teatro não é meu forte. Talvez tenha sido por isso que tive uma sensação de sobrecarga de clichés ao ler O Rei Lear.

O outrora poderoso rei sente a velhice pesando sobre seus ombros e embotando seu cérebro, levando-o a tomar decisões erradas sobre o futuro de seu reino. Suas duas filhas casadas enganam-no com frases falsamente adocicadas e recebem cada uma metade de todas as terras. A filha mais moça, solteira, é incapaz de usar de inverdades e assim comover o rei. Amigos fiéis que tentam abrir os olhos de Lear são condenados por traição. A falsidade torna-se a regra, e o rei encontra-se abandonado, na rua, rodeado apenas por alguns soldados e por seu Bobo, um dos poucos que mantém a lucidez.

A decrepitude anda a passos rápidos e Lear, uma vez dando-se conta de seus erros, sofre ainda mais e enlouquece. Como diz o Conde de Kent, o amigo fiel "...que desde o começo de teu infortúnio e declínio seguiu teus tristes passos": tudo é desolação, trevas e luto.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Hamlet


William Shakespeare
141 páginas
ISBN-13: 978.85.254.0611-8
Preço: R$9,50
Tradução: Millor Fernandes




Começo a duvidar da minha escolha - não da escolha de Shakespeare na minha lista , mas da escolha de ler todos os livros que a Gabi comprou escritos por ele, incluindo as tragédias. Principalmente as tragédias... Sei lá, não estou numa das minhas melhores fases, e tanta morte, traição, desconfiança, intrigas e todas essas coisas que o bardo manipulava com maestria parecem estar me fazendo mais mal do que bem. Mas, enfim, das que me propus a ler, faltam só duas: Otelo e A Tempestade. Se alguém achar que elas são contra-indicadas por serem o ápice das tragédias shakespereanas, por favor, avise!

Vamos a Hamlet, então. Aqui estão algumas das citações mais citadas (que trocadilho infame!) do bardo: "Ser ou não ser, eis a questão", "Há algo de podre no reino da Dinamarca" (que o Millor traduz por Estado da Dinamarca), "Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia" e "Leviandade, teu nome é mulher".

Alan diz que as tragédias de Shakespeare se resumem a homem ama mulher, mulher ama homem, eles não podem casar, eles se matam. Ou são mortos. Ou algo assim. Eu não chego a tanto, mas vamos tentar: o rei Hamlet é assassinado pelo irmão que casa com a viúva que é mãe do jovem Hamlet que é apaixonado pela bela Ofélia, cujo pai Polônio é contra o romance. O fantasma do rei aparece ao filho exigindo vingança e a partir daí todos morrem, inclusive o irmão de Ofélia que retorna da França para vingar o assassinato do pai e o suicídio da irmã. É claro que eu assassinei o enredo nessa tentativa vã de resumir uma das mais famosas obras de Shakespeare num par de linhas. Mas a estória não é muito diferente - muito mais complexa, mas não tão diferente.

Acho que vou deixar Rei Lear e Macbeth para outra ocasião em que eu esteja melhor.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bem está o que bem acaba





Bem está o que bem acaba
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
145 páginas
ISBN-13: 978.85.254.1662-9
Preço: R$11,00


Inspirada numa das novelas do Decamerão, de Giovanni Boccaccio, esta peça é classificada como uma das comédias de Shakespeare. Não tem, entretanto, a leveza nem a alegria das outras que li. Há uma aparente contradição no título, pois a estória não tem o final característico "... e foram felizes para sempre." Quando ela acaba, restam muitas interrogações.

Shakespeare cria aqui uma situação inusitada para a época, muito a frente dos costumes vigentes. É a estória de Helena, uma plebéia que salva a vida do rei e recebe como recompensa o direito de escolher o próprio marido, de classe social superior à sua, e o poder de decidir o destino dele. Mas... o escolhido não vê a escolha como benefício. Sem alternativa, já que é uma ordem real, ele aceita, mas foge para uma guerra, da qual não queria participar, antes mesmo da noite de núpcias.

A partir daí desenvolve-se uma trama recheada de cinismo e humor negro, num ritmo acelerado, até o final que não é o esperado pela platéia - nem tudo acaba bem. Ou não acaba, pois se não está bem, ainda não acabou. Resta imaginar.

Muito barulho por nada


William Shakespeare
150 páginas
ISBN-10: 85.254.1214-7
Preço: R$9,50





Outra comédia brilhante do bardo, apesar de ter traços de tragédia, como difamações e cerimônia fúnebre.

Há diálogos fascinantes, como os duelos verbais entre Beatriz e Benedicto, que esgrimem as palavras cada vez que se encontram. Há diálogos hilários, cheios de termos supostamente sofisticados, travados entre os chefes da guarda e os contraventores. Como essas preciosidades, por exemplo: "Não vamos nos poupar de nossa inteligência...; eu aqui tenho como deixar eles destrampalhados. Só vai buscar o escrivão que sabe escrever que é para ele fazer a excomunicação do nosso interrogamento..." Ou essa: "... eles cometeram informações falsas, além disso falaram inverdades, em segundo lugar são uns difamadores, em sexto e por último caluniaram uma dama, e para concluir são uns mentirosos de uns cafajestes." Como não poderia deixar de ser, há também o vilão da trama, despeitado, vingativo, cheio de ódio, que admite ser um "patife franco e leal".

Nas palavras da tradutora, Beatriz Viégas-Farias, a estória é shakespearianamente tragicômica. É puro teatro, e é Shakespeare de ponta a ponta.

A comédia dos erros






A Comédia dos erros
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
100 páginas
ISBN-10: 85.254.1363-1
Preço: R$8,00


A Gabi comprou diversos livros dessa coleção, então eu sigo com Shakespeare ainda por um bom tempo.

A Comédia... é muito divertida, e outra que deve ser lida numa sentada porque a confusão é grande. É a estória de gêmeos idênticos que foram separados pouco depois do nascimento e a quem foram dados os mesmos nomes. Além deles, há outro par, também gêmeos idênticos com nomes iguais, que foram separados nas mesmas circunstâncias e que são criados dos primeiros.

Confuso? Isso é apenas uma tentativa de resumir o imbróglio. Confusão mesmo é quando eles vão se encontrando alternadamente, nunca juntos, com esposa, vizinho, amigo, credor. Todos dizem que não estão entendendo nada, e eu tive que reler trechos porque também me perdi nas trapalhadas inteligentemente criadas pelo bardo. Pobres dos criados, que pagaram no lombo a impaciência dos mestres!

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

A megera domada


William Shakespeare
127 páginas
ISBN: 978.85.254.0882-2
R$10,00

Ainda nas comédias, ainda em Shakespeare. Esse vem com um atrativo extra: tradução do Millôr Fernandes. Como introdução, há trechos de uma entrevista que ele deu à então revista Senhor, em 1962, sobre tradução - que continuam atualíssimos. Uma pequena amostra: "Não se pode traduzir sem ser escritor, com estilo próprio, originalidade sua, senso profissional. Não se pode traduzir sem dignidade."

Concordo plenamente. É por isso que as traduções que faço, para ganhar uns trocados, me são tão difíceis. Não sou escritora, apesar de todos os meus sonhos e vontades. Mas procuro compensar com clareza. O que é muito pouco, claro. Lembro sempre uma crítica que li sobre a tradução de "Os frutos da terra", do André Gide: fosse a língua mãe do autor o português e a tradução não seria mais tradução e sim o trabalho original. Quem me dera!

Voltando a Shakespeare, e à Megera. Menos confusões aqui do que nos "Sonhos...", mas não menos divertidas. Acompanhar as trapaças e tramóias do decidido Petrúquio para domar e conquistar a submissão da famigerada megera Catarina é garantia de divertimento. Além disso, aparecem aqui amostras de uma das qualidades de Shakespeare: criar xingamentos inteligente e originais. Vermes teimosos e impotentes, saco de batatas podres, poltrão, língua viperina, asno imbecil, filho de uma égua engalicada, e por aí vai.

As tragédias também fazem parte da minha lista, mas acho que sigo um pouco mais com as comédias.

domingo, 6 de janeiro de 2008

Sonhos de uma noite de verão





Sonhos de uma noite de verão
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
120 páginas
ISBN: 978.85.254.1091-7
Preço: R$9,50



Segui meu próprio conselho. "Sonhos de uma noite de verão" é uma das comédias divertidas de Shakespeare, onde a imaginação do bardo corre solta. Tão solta que eu, interrompendo a leitura para dormir (não sei fechar os olhos sem um livro na minha mesa de cabeceira), tive que voltar diversas páginas no dia seguinte, pois me encontrei perdida tal qual alguns personagens no bosque onde acontece a estória.

Transcrevo parte do sumário do catálogo da editora.

"Numa noite de verão, num bosque, quatro jovens enamorados encontram-se e desencontram-se: Lisandro ama Hérmia que ama Lisandro e é amada por Demétrio, que é amado por Helena; depois, Demétrio ama Helena, que ama Demétrio e é amada por Lisandro, que é amado por Hérmia. Na manhã seguinte, tudo se resolve, e há um casamento triplo, pois casam-se também o Duque de Atenas e a Rainha das amazonas."

Mas isso não é tudo. Esse mesmo bosque é escolhido como lugar de ensaio para uma peça teatral que trabalhadores locais decidiram encenar para as comemorações das bodas reais. Nenhum deles tem experiência em teatro e a descrição de como resolverão problemas como representar o luar ou ter um muro separando os amantes é brilhante! A "comédia trágica", como os atores a chamam, é tão ruim que torna-se hilária.

Para completar a confusão, o bosque é ainda habitado por fadas e duendes, cujo Rei e Rainha estão engalfinhados numa disputa pessoal, e essa disputa leva a Rainha a apaixonar-se loucamente por um mortal com cabeça de burro.

Tudo isso em 120 pequenas páginas. Para ler numa sentada - caso contrário perde-se, como eu perdi, o fio da meada.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Alice no País das Maravilhas




Lewis Carroll
172 páginas
ISBN: 978.85.254.0943-0
Preço: R$12,00








Minha lista dos 100 anda um pouco lenta porque tenho lido muita coisa sobre vinhos. Alice está na lista, e eu decidi que agora era um excelente momento para ler suas aventuras. Muita informação técnica junto com a filosofia um pouco pesada (para mim) dos últimos livros não estavam me fazendo bem.

Eu provavelmente li esse livro mas, se li, foi há tanto tempo que nem lembro. Claro que o enredo básico estava gravado a ferro e a fogo na minha memória. Como toda a estória clássica, podemos resumi-lo mesmo que nunca tenhamos posto os olhos no original.

Escrito originalmente para crianças, o livro foi publicado em 1865 sem mencionar esse fato, e imediatamente tornou-se um grande sucesso também entre adultos, não só por ser uma estória fascinante, mas também por retratar fielmente algumas situações tão comuns ao nosso dia-a-dia. Ao meu, pelo menos - a Síndrome do Coelho faz parte do meu pacotinho de resoluções para 2008. Se minha intenção era fugir de filosofia, a escolha não foi tão boa afinal. Há coisas nesse livro que cutucam!

Como o diálogo da Alice com o Gato, quando ela pergunta que caminho tomar para sair do lugar onde estava. "Isso depende de onde você quer chegar", foi a resposta. Ao que Alice retrucou: "O lugar não me importa muito." E ouviu a conclusão óbvia - no livro, porque nas nossas vidas muitas vezes a ignoramos: "Então não importa que caminho você vai tomar."

E outras, como o eterno questionamento de, afinal, quem sou eu? "...sei quem eu era quando me levantei hoje de manhã, mas acho que devo ter mudado várias vezes desde então." Ou essa: "... não adianta voltar atrás para ontem, porque eu era então uma pessoa diferente."

Mesmo com filosofia, o livro atingiu o objetivo que eu busquei: uma leitura leve, divertida e muito inteligente. Acho que o próximo será uma das comédias do Shakespeare.