domingo, 10 de agosto de 2008

No que acredito


Bertrand Russel
101 páginas
ISBN: 978.85.254.1601-8
Preço: R$8,00






Outra vez entretida por semanas com livros sobre vinhos - e livros técnicos, o que significa muita atenção, leitura progredindo lentamente. Mas, entre antocianinas e fenóis, reli esse pequeno livro.

Que deve ser lido e relido algumas vezes por quem, como eu, foi educada em colégio de freiras e levou muito tempo para começar a se questionar sobre certos ensinamentos, os quais causaram muito sofrimento e hoje são considerados lavagem cerebral. E foram - quase! - todos varridos para o lixo, como mera superstição.

Das notas da contracapa, resumo.
Bertrand Russel nasceu no País de Gales em 1872, filho de uma família tradicional no auge do poderio econômico e político da Grã-Bretanha. Dono de uma mente lúcida e gênio ácido, Russel é considerado, ao lado de Sartre, o filósofo mais expressivo e engajado do século XX. Publicado em 1925, esse pequeno livro reflete sua visão sobre o papel e a influência da religião na vida das pessoas.

Do livro em si, alguns extratos.
  • O medo é a base do dogma religioso, assim como de muitas outras coisas na vida humana.
  • É o medo da natureza que dá origem à religião.
  • A religião, por ter no terror a sua origem, dignificou certos tipos de medo e fez com que as pessoas não os julgassem vergonhosos.
  • Todo medo é ruim.
  • A vida virtuosa é aquela inspirada pelo amor e guiada pelo conhecimento. /.../ Nem o amor sem conhecimento, nem o conhecimento sem amor podem produzir uma vida virtuosa.
  • A superstição é a fonte das normas morais.
  • Os defensores da moralidade tradicional raramente são pessoas com corações generosos, como se pode constatar no amor ao militarismo revelado pelos dignitários da Igreja. Seduz pensar que apreciam a moralidade como aquilo que lhes propicia um meio legítimo para dar vazão ao desejo de infligir sofrimento; o pecador constitui uma caça legal; portanto, fora com a tolerância!
  • Em todas as etapas da educação, a influência da superstição é desastrosa. Uma certa porcentagem de crianças é dada ao hábito de pensar; uma das metas da educação é curá-las desse hábito. Assim, perguntas inconvenientes são repreendidas com "silêncio, silêncio!" ou com castigo.
  • Enquanto os clérigos continuarem a perdoar a crueldade e a condenar o prazer inocente - na qualidade de guardiões da moral dos jovens - só poderão fazer o mal.

O livro não é feito apenas de ataques à superstição e, consequentemente, à religião. A seleção desses extratos é, provavelmente, resquício dos ensinamentos que ainda não foram de todo varridos de mim. O enfoque de Russel é muito mais amplo, incluindo sua visão clara e objetiva sobre a dualidade amor e ódio ("Um simples desejo, considerado isoladamente, não é melhor nem pior do que qualquer outro; mas um grupo de desejos será melhor do que um outro se todos os desejos que o compõem se realizarem simultaneamente, ao passo que, no outro grupo, forem incompatíveis entre si. Eis por que o amor é melhor que o ódio.") ou a realização da democracia ("Quando as qualidades que hoje conferem liderança se tornarem universais, já não haverá líderes e seguidores, e a democracia por fim terá sido concretizada").

Utopia? Talvez. Mas como diz Eduardo Galeano, a utopia serve para que não deixemos de caminhar.

3 comentários:

Clarice disse...

Helô, se eu fizesse análise, o/a terapeuta se jogaria da janela. Tenho uma lembrança muito nítida de um piquenique com as freiras e mais umas cem estudantes, chamadas juvenistas, porque pretendiam ser religiosas(inclusive esta que vos fala). Em meio à farra e comilança sentei ao lado de um jovem padre e da altura de meus 13 anos, lasquei:"Eu não acredito em céu e inferno". Teria sido uma excelente oportunidade para ele debater com uma atrevida adolescente cheia de dúvidas e firmar ou desmontar a crença, mas ele respondeu:"Problema teu"!
A partir daí eu discutia comigo mesma todas as dúvidas. Sorte minha, que lia demais, mas minha cabecinha virou uma salada!
Continuei lendo demais e não faz muito tempo que achei um caminho sem nome, onde eu decido em que acreditar e sem medo de dizer isto.
Minha mãe fica horrorizada até com o fato de meu filho não ter religião alguma. Isso não me constrange. Ela que lide com as dúvidas dela; eu com as minhas certezas.
Beijo e repara na longa missiva, não, viu? Quando eu me entusiasmo, sou um fiasco.

Helô disse...

Querida Clarice, desculpe demorar para responder, estou envolvida na divulgação do jantar de quinta-feira.

Juvenistas... Eu me lembro de algumas no colégio onde estudei. Elas substituiam professoras que faltavam.

Sobre esse padre, ele certamente deixou passar uma excelente oportunidade de diálogo, mas poderia ter sido pior. Ele poderia ter te chamado de herege ou algo assim - se bem que eu acho que ele foi esperto e sentiu que contigo não iria adiantar.

Pois é, a gente leva tempo prá achar o nosso caminho, e nem sempre somos entendidas. A Gabi segue por um caminho parecido com o nosso, mas o Marcelo tem certeza absoluta que sou supersticiosa. Como disseste, cada um com suas certezas, e a maneira como procuro mostrar as minhas é pelo exemplo.

Esse é um assunto que poderia render parágrafos e mais parágrafos (eu também me entusiasmo) mas vamos deixar para conversar com uma panela de polenta e diversas garrafas de vinho entre nós!

beijos de chuva - again!

Rogério Tomaz Jr. disse...

Só uma correção, a citação sobre utopia é do Fernando Birri, mas o Galeano a publicou no seu "As palavras andantes" e isso a disseminou como se fosse sua (embora o próprio Galeano sempre desminta isso)...

"A Utopia está lá no horizonte.
Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos.
Caminho dez passos e o horizonte corre dez.
Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei.
Para que serve a utopia?
Serve para isto: Para que eu não deixe de caminhar".