domingo, 2 de março de 2008

O Tempo e o Vento - O Continente Vol 1


Erico Verissimo
414 páginas
ISBN: 9788535905595
Preço: R$47,38




Essa será provavelmente a mais difícil tarefa da minha lista. Para falar sobre Erico Verissimo e "O Tempo e o Vento" há que conhecer a história do Sul do Brasil, há que entender as pessoas e a cultura geradas por décadas de lutas sangrentas e isolamento geográfico e político. O Rio Grande do Sul, então chamado de Continente de São Pedro, foi desenhado pelas patas dos cavalos e pelas facas dos homens que neles montavam e viajavam por essas terras de ninguém.

Em 1745, quando se inicia a ação do romance, o Continente ainda era isso, uma terra de ninguém. Os jesuítas já tinham suas Missões há quase 100 anos, e haviam estabelecido uma sociedade impar, socialista na sua administração e religiosa como se poderia esperar. Os índios, nativos e donos da terra, dividiam toda a produção que dela extraíam, e aprendiam com os padres a ler, a tocar e produzir instrumentos musicais.

Os homens que montavam os cavalos e peleavam chegaram por essa época, os portugueses vindo de São Vicente (hoje São Paulo) e os castelhanos da Banda Oriental, do Rio da Prata e dos lugares que hoje conhecemos por Uruguai e Argentina. Todos guerreando por terras, buscando suas riquezas e caçando pessoas para torná-las escravas, incentivados pelos governos de Portugal e Espanha, que tentavam estender seus domínios pela ponta de espadas - e algumas vezes pela pena no papel, assinando tratados que apenas a eles interessavam, sem consideração alguma pelos habitantes, fossem eles os índios nativos ou os brancos invasores.

É nesse teatro que o enredo inicia e segue por mais de 150 anos descritos em sete volumes. "O Continente, volume 1" é dividido em sete capítulos, todos eles unidos pelo fio dos acontecimentos que se desenrolam n"O Sobrado", então sitiado pelas tropas federalistas durante a revolução de 1895 e contam os acontecimentos transcorridos da noite do dia 24 de junho à madrugada de 27 de junho. "Era uma noite fria de lua cheia", começa a estória, e então nos encontramos irremediavelmente presos à saga da família Cambará. "Um Cambará macho não morre na cama", dizia o Capitão Rodrigo, e essa frase ficou gravada nos povos do Continente como tatuagem. Há que conhecer a história, e então ela, a frase, faz sentido.

Erico Verissimo é um excelente contador de estórias, um dos melhores que conheço. Os personagens de "O Tempo e o Vento" atam, cativam, despertam amores e ódios, nunca indiferença. As guerras estão presentes sempre, e através delas conhecemos homens fortes e guerreiros, mas são as mulheres que conduzem o fio do tempo e é sob sua ótica, a voz das mulheres destinadas a servir e a parir, que acompanhamos o crescimento de uma sociedade machista.


A primeira, forte e corajosa, é Ana Terra, dotada de uma determinação imbatível, toda ela engajada em garantir a subsistência da pequena família que lhe sobrou após a carnificina patrocinada pelos castelhanos que mataram seu pai e irmãos. Segue-lhe a neta Bibiana, a encarnação do conceito "persistência feminina", aquela que aceita a vida como ela é mas que conduz as peças do jogo de maneira a favorecer seus objetivos.


Entre os homens, nenhum que se compare ao Capitão Rodrigo Cambará, intrépido, sedutor, todo ele exalando vida e energia. "Buenas e me espalho! Nos pequenos dou de prancha e nos grandes dou de talho!", suas primeiras palavras na estória, são repetidas até hoje - e repetidas sem que seja necessário citar o autor.


"Num constante ir e vir entre o passado - as Missões, a fundação do povoado de Santa Fé - e o tempo do Sobrado sitiado [...] desfilam personagens fascinantes, eternamente vivos na imaginação dos leitores de Erico Verissimo." (informação da contracapa)


Livro imprescindível.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A tempestade






A tempestade
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
115 páginas
ISBN: 978.85.254.1115-0
Preço: R$9,50


Para minha surpresa, a última obra escrita pelo bardo não é uma tragédia. A contracapa informa ser uma estória de vingança, de amor, de conspirações oportunistas. Há traição, mas não morte.

A estória acontece numa ilha, para onde Próspero, o Duque de Milão, foi levado com sua filha então pequena, devido à traição de seu próprio irmão que juntou-se ao Rei de Nápoles. Nessa ilha mora Caliban, um escravo adulto e disforme que serve Próspero. Também a serviço do Duque está Ariel, um espírito assexuado que pode se transformar em vento, tempestade, fogo e em qualquer imagem que deseje.

Por anos, Próspero desenvolve poderes e planeja sua vingança contra seus desafetos, ao mesmo tempo que cria uma estratégia para tornar sua filha, a bela Miranda, em esposa do herdeiro do trono de Nápoles. Com o auxílio de Ariel, uma forte tempestade é provocada, causando o "naufrágio" do navio onde se encontram o Rei, seu filho e auxiliares, incluindo aí o irmão de Próspero. Como em Sonhos de uma noite de verão, a imaginação do bardo corre solta: mágica e seres espirituais contribuem tanto para a riqueza do enredo quanto acontecimentos corriqueiros como um pileque.

Esse é o momento cômico da estória. Caliban encontra dois sobreviventes do "naufrágio" que tem acesso a um carregamento de vinho. Os diálogos então travados são ricos em ofensas ("aborto da natureza" e "monstro mentecapto" são algumas delas) e tiradas: "enfio o gibão para dentro do cós e, pela minha mão, ele agora está ao sul do Equador, e aqui encontra, este gibão, uns bagos! Quando de sífilis se perderem os pentelhos, teremos um colhão careca."

E a estória, que por muitos é considerada a obra-prima de Shakespeare, uma estória de dor e reconciliação, acaba bem. Só não vou contar como, prá não estragar o prazer de quem vai ler. Posso dizer que fechei minha "série Shakespeare" com chave de ouro.

Macbeth




William Shakespeare
134 páginas
ISBN: 978.85.254.1024-5
Preço: R$9.00




Macbeth, juntamente com O Rei Lear, foi escrita na maturidade de Shakespeare, entre 1605 e 1606. Encontramos aqui aquela que os críticos consideram uma das mais pérfidas vilãs da literatura: Lady Macbeth, a ambiciosa esposa do general escocês.

Macbeth e Banquo, outro general, encontram três bruxas que fazem predições sobre o futuro dos dois: Macbeth será rei, mas menos poderoso que Banquo, cujos filhos serão reis. Macbeth não entende como tal poderá acontecer e narra o encontro para sua esposa que, ambiciosa, exerce seu poder sobre o marido, convencendo-o a cometer traição e assassinatos.

Tais fatos desecadeiam uma série de acontecimentos (leia-se mais traições e mortes), causando uma reviravolta na corte.

Mortes demais para meu gosto.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

O Rei Lear




O Rei Lear
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
140 páginas
ISBN: 978.85.254.0681-1
Preço: R$10,00
Tradução: Millor Fernandes



A teimosia foi maior, e eu não deixei nem Lear, nem Macbeth e nem A Tempestade para outra ocasião. Continuo sem muita inspiração para escrever sobre o que li - até porque teatro não é meu forte. Mas vou tentar, nem que seja para copiar pedaços das contracapas.

O que não me entusiasma muito a respeito desse tipo de obra é que, por razões óbvias, o texto é todo constituído de diálogos, em geral curtos, que devem resumir situações complexas, sentimentos, idéias, dores e amores. O que num romance ou mesmo num conto toma uma ou duas páginas, aqui ocupa um par de linhas. Acredito que o palco e a possibilidade de ver a face e a voz das emoções mude essa sensação. Mas como já disse, o teatro não é meu forte. Talvez tenha sido por isso que tive uma sensação de sobrecarga de clichés ao ler O Rei Lear.

O outrora poderoso rei sente a velhice pesando sobre seus ombros e embotando seu cérebro, levando-o a tomar decisões erradas sobre o futuro de seu reino. Suas duas filhas casadas enganam-no com frases falsamente adocicadas e recebem cada uma metade de todas as terras. A filha mais moça, solteira, é incapaz de usar de inverdades e assim comover o rei. Amigos fiéis que tentam abrir os olhos de Lear são condenados por traição. A falsidade torna-se a regra, e o rei encontra-se abandonado, na rua, rodeado apenas por alguns soldados e por seu Bobo, um dos poucos que mantém a lucidez.

A decrepitude anda a passos rápidos e Lear, uma vez dando-se conta de seus erros, sofre ainda mais e enlouquece. Como diz o Conde de Kent, o amigo fiel "...que desde o começo de teu infortúnio e declínio seguiu teus tristes passos": tudo é desolação, trevas e luto.

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Hamlet


William Shakespeare
141 páginas
ISBN-13: 978.85.254.0611-8
Preço: R$9,50
Tradução: Millor Fernandes




Começo a duvidar da minha escolha - não da escolha de Shakespeare na minha lista , mas da escolha de ler todos os livros que a Gabi comprou escritos por ele, incluindo as tragédias. Principalmente as tragédias... Sei lá, não estou numa das minhas melhores fases, e tanta morte, traição, desconfiança, intrigas e todas essas coisas que o bardo manipulava com maestria parecem estar me fazendo mais mal do que bem. Mas, enfim, das que me propus a ler, faltam só duas: Otelo e A Tempestade. Se alguém achar que elas são contra-indicadas por serem o ápice das tragédias shakespereanas, por favor, avise!

Vamos a Hamlet, então. Aqui estão algumas das citações mais citadas (que trocadilho infame!) do bardo: "Ser ou não ser, eis a questão", "Há algo de podre no reino da Dinamarca" (que o Millor traduz por Estado da Dinamarca), "Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia" e "Leviandade, teu nome é mulher".

Alan diz que as tragédias de Shakespeare se resumem a homem ama mulher, mulher ama homem, eles não podem casar, eles se matam. Ou são mortos. Ou algo assim. Eu não chego a tanto, mas vamos tentar: o rei Hamlet é assassinado pelo irmão que casa com a viúva que é mãe do jovem Hamlet que é apaixonado pela bela Ofélia, cujo pai Polônio é contra o romance. O fantasma do rei aparece ao filho exigindo vingança e a partir daí todos morrem, inclusive o irmão de Ofélia que retorna da França para vingar o assassinato do pai e o suicídio da irmã. É claro que eu assassinei o enredo nessa tentativa vã de resumir uma das mais famosas obras de Shakespeare num par de linhas. Mas a estória não é muito diferente - muito mais complexa, mas não tão diferente.

Acho que vou deixar Rei Lear e Macbeth para outra ocasião em que eu esteja melhor.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2008

Bem está o que bem acaba





Bem está o que bem acaba
William Shakespeare
Coleção L&PM Pocket
145 páginas
ISBN-13: 978.85.254.1662-9
Preço: R$11,00


Inspirada numa das novelas do Decamerão, de Giovanni Boccaccio, esta peça é classificada como uma das comédias de Shakespeare. Não tem, entretanto, a leveza nem a alegria das outras que li. Há uma aparente contradição no título, pois a estória não tem o final característico "... e foram felizes para sempre." Quando ela acaba, restam muitas interrogações.

Shakespeare cria aqui uma situação inusitada para a época, muito a frente dos costumes vigentes. É a estória de Helena, uma plebéia que salva a vida do rei e recebe como recompensa o direito de escolher o próprio marido, de classe social superior à sua, e o poder de decidir o destino dele. Mas... o escolhido não vê a escolha como benefício. Sem alternativa, já que é uma ordem real, ele aceita, mas foge para uma guerra, da qual não queria participar, antes mesmo da noite de núpcias.

A partir daí desenvolve-se uma trama recheada de cinismo e humor negro, num ritmo acelerado, até o final que não é o esperado pela platéia - nem tudo acaba bem. Ou não acaba, pois se não está bem, ainda não acabou. Resta imaginar.

Muito barulho por nada


William Shakespeare
150 páginas
ISBN-10: 85.254.1214-7
Preço: R$9,50





Outra comédia brilhante do bardo, apesar de ter traços de tragédia, como difamações e cerimônia fúnebre.

Há diálogos fascinantes, como os duelos verbais entre Beatriz e Benedicto, que esgrimem as palavras cada vez que se encontram. Há diálogos hilários, cheios de termos supostamente sofisticados, travados entre os chefes da guarda e os contraventores. Como essas preciosidades, por exemplo: "Não vamos nos poupar de nossa inteligência...; eu aqui tenho como deixar eles destrampalhados. Só vai buscar o escrivão que sabe escrever que é para ele fazer a excomunicação do nosso interrogamento..." Ou essa: "... eles cometeram informações falsas, além disso falaram inverdades, em segundo lugar são uns difamadores, em sexto e por último caluniaram uma dama, e para concluir são uns mentirosos de uns cafajestes." Como não poderia deixar de ser, há também o vilão da trama, despeitado, vingativo, cheio de ódio, que admite ser um "patife franco e leal".

Nas palavras da tradutora, Beatriz Viégas-Farias, a estória é shakespearianamente tragicômica. É puro teatro, e é Shakespeare de ponta a ponta.